sexta-feira, 30 de março de 2012

Ninguém é invencível. Ninguém é obrigado a ser forte o tempo inteiro. Ninguém precisa fazer tudo sozinho. Ninguém precisa trilhar os mesmos caminhos que os outros já trilharam.

Desde que decidi começar este blog, desabafando, contando minhas agruras, assumi novas responsabilidades. Responsabilidades que tenho adorado, mas que ao mesmo tempo pesam. Recebo emails de várias partes do Brasil, e até Portugal, de pessoas que contam suas histórias, suas angústias. Elas dividem comigo isso e eu me sinto lisonjeada em poder ser parte. Ao mesmo tempo, me pedem conselhos sobre o que fazer para não acender o próximo cigarro. Tem gente que coloca em mim a responsabilidade de não acender o próximo - e essa é a parte que me assusta.



Eu não tenho fórmula secreta. Não existe fórmula secreta. A maneira com a qual as pessoas lidam com seus medos, vontades e ansiedades muda de cabeça pra cabeça. Aqui eu conto o que eu fiz, o que eu vi, o que eu senti. Ninguém precisa fazer o mesmo, de forma alguma. Se o tranco tá muito duro e o fardo muito pesado, vai ao médico e pede um medicamento. Eles não são a solução definitiva, mas nos ajudam naquele empurrão inicial. As dicas existem e a gente tenta seguir se ajudando. O que eu fiz e faço:

- tomo água (muita água)
- paro e respiro fundo
- arrumo outra coisa pra fazer (já aconteceu de começar a fazer faxina às 2h, mas logo cansei, esqueci o cigarro e dormi)
- como pepino em conserva (ou palmito, ou minimilho, ou ovo de codorna)
- chiclete de nicotina (o danado é bom!)
- chiclete comum - é o que tenho usado no momento
- ter sempre um lápis ou caneta na mão pra quando der falta do danado entre os dedos
- cigarro eletrônico (merece um post a parte. não é bem igual, mas disfarça)
- narguilé - não fumo, mas tem gente que aproveita pra matar a vontade de fumaça com aqueles fumos de frutas. Como é forte, o fumo é caro e o aparelho pouco prático, acontece do povo usar só vez que outra
- adesivo - não usei, mas dizem que o efeito é parecido com o chiclete. só cuidem com a quantidade, pois é bem perigoso.

Mas lembrem-se: se o sofrimento for demais mesmo, não hesite em procurar um médico e conseguir mais ajuda nessa parada!
Tamos aí!


quarta-feira, 28 de março de 2012

Nem sempre a vida é um mar de rosas. Nem sempre a gente acorda alegre. Nem sempre as coisas acontecem como queremos. Nem sempre somos felizes e confiantes. Nem sempre as coisas dão certo. Ontem fiquei pensando: o que seria ruim o bastante para me dar motivo suficiente para voltar a fumar?

Uma queridíssima amiga disse que voltou quando terminou com o namorado e a avó ficou doente. Isso me fez pensar em se existe sofrimento tão grande que justifique o retorno ao vício. Conheço muitas outras histórias de recaída: mortes, perdas, tristezas, estresses. Passamos por tantos momentos de vulnerabilidade que fica difícil até enumerar todos os possíveis.

Sonhei que eu sofria muito. Isso me causava uma dor lancinante. Sensação de estar sem chão, sem vida, um grande vazio. Chorava muito. Sabe dor? Sabe vazio? Era isso. E me corroia. E quando eu acordei, o que mais estranhei em tudo que pensei enquanto sofria - e de tudo, tudo mesmo, passou pela minha cabeça - era que não havia pensado em acender um cigarro. Será que sou assim tão forte?

Na biografia do Eric Clapton (quem não leu ainda, corre) ele fala muito sobre as múltiplas desintoxicações. Ele conta que na saída de uma reunião do AA, a reunião em que ele falava sobre a morte do filho Connor - que tinha 4 anos e caiu da sacada do apartamento - uma mulher veio falar com ele. Ela disse que o fato dele ter permanecido sóbrio após a morte de um filho acabava com a única desculpa que ela guardava para si, internamente, para voltar a beber.




Acho terrível sair julgando fraquezas. A dor tem um efeito diferente em cada pessoa. Mas é legal refletir se no fim é fraqueza, ou só desculpa interna, nossa, íntima, inconfessável, que guardamos pra matar a saudade do vício antigo. Acho que logo que a gente para de fumar essa lista é imensa. Aos poucos ela vai diminuindo, conforme vamos nos fortalecendo. Não sei. Mas no momento em que reli aquela frase, pensei a mesma coisa: não tenho mais desculpa nenhuma para voltar a fumar. And I feel fine.

terça-feira, 27 de março de 2012

Aí você tá sentada na praça, bem de boa, conversando com sua amiga que está fumando. Chega um ex-colega de trabalho que não via há tempos.

- Me dá um cigarro?
- Não rola. Parei de fumar.
- Eu também!!!
- ?!?!
- Mas de vez em quando eu fumo.
- Então tu não parou de fumar.
- Parei, sim!
- ahan...
- Claro! É só de vez em quando! O que tu faz quando tem vontade de fumar?
- Eu espero passar.
- Ah bom, eu fumo. Mas parei de fumar. Sério.



Como dar crédito, não é mesmo. Por isso que digo que detesto ex-fumante que continua no ritmo "semedão".

segunda-feira, 26 de março de 2012

Parar de fumar não faz com que apenas paremos com o hábito de colocar um cigarrinho na boca e sair fazendo fumaça. Parar de fumar muitas vezes significa mudar de hábitos, de itinerário, perder alguns contatos. Eu, por exemplo, fazia um determinado caminho até o trabalho pra passar pelo mercadinho que aceitava cartão de débito na venda do cigarro. Atitude normal de quem se livra de qualquer vício. O cara que é alcoólatra em recuperação não vai mais ao mesmo bar todos os dias, sair com os mesmos amigos. A menina que perdeu 50kg não vai mais à mesma confeitaria que ia diariamente comprar duas fatias de torta com chocolate quente. Não adianta. Não dá mais. Não combina. A gente se desencaixa desse mundo (por mais que sinta falta).



Nesse momento em que parei, deixei de frequentar o fumódromo aqui do trampo. Pra quem não sabe, o fumódromo normalmente é um lugar a céu aberto ou insalubremente fechado onde os fumantes se amontoam pra fazer fumaça. Olha, já tive em fumódromos de todos os tipos, desde os mais hitech que possuíam um sistema de filtros fantástico que fazia com que o lugar não tivesse nem cheiro de cigarro, até os 2mx2m, absurdamente enfumaçados, hermeticamente fechados onde tu te sente até humilhado de só poder fumar ali. Mas paciência. Quando a gente fuma, a gente aguenta. Não sinto nenhuma falta do fumódromo do meu trabalho atual. Ainda bem. É mais fácil evitar aquele lugar, aquele caminho, aquelas pessoas e aquelas conversas, quando elas já não faziam muita falta antes.

Trabalhei em um lugar onde nem sempre as coisas eram assim. Era um fumódromo chinelão. Só não era mais insalubre por falta de espaço. Na real, acho que o quesito insalubridade sempre fica de fora quando o engenheiro pensa em um fumódromo. Cara deve pensar: pô, tão indo lá pra fazer algo insalubre, para quê querem um ambiente agradável, não é mesmo? Entretanto, mesmo sendo uó, a gente ia e fazia questão de sentar só pra poder ouvir histórias de um tempo em que o jornalismo era menos chato, burocrático e preguiçoso. Adorava ficar lá ouvindo todas aquelas histórias daquelas pessoas interessantíssimas. Agora em que penso no desapego de frequentar um fumódromo, penso em como é bom desapegar de algo que não tinha atrativos e não de lugares bagaceiros como aquele, mas cheio de boas histórias pra escutar.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Quando essa história começou até eu duvidei que conseguiria. Afinal, era muito tempo fumando muito. O direito da dúvida era mais que legítimo. A cena em que eu estava sentada com um copo de cerveja na mão chorando, naquele primeiro dia, ilustra bem isso. Desde aquele momento, encarei cada crise de abstinência de frente, contando sempre com o apoio e ajuda das pessoas amadas que me cercam.



Pode soar clichê, mas sem o apoio das pessoas queridas da minha vida, acho que teria desistido. Cada "valeu", "firme", "isso aí", "não desiste" tem um peso enorme na tarefa de manter a decisão. E mesmo sabendo que todas essas pessoas poderiam ficar desapontadas se eu voltasse a fumar, EU sou a razão maior para não voltar. É a mim que eu não posso desapontar. Acho fundamental tomar as decisões certas pelos motivos certos. É por mim que parei. Se não fosse assim, teria sempre uma desculpa para voltar. Agora não tenho.

Outra coisa que me deixou muito feliz nos últimos dois meses foi poder inspirar pessoas. Tem gente que eu gosto muito parando de fumar porque entrou nessa mesma onda boa. Tem gente que eu não conheço que me escreve dizendo que ler o blog tem sido importante para parar de fumar. Quando eu poderia imaginar uma coisa dessas dois meses atrás chorando com um copo de cerveja na mão?

Parar de fumar tem sido uma experiência especial. E que os próximos meses continuem leves e com todos vocês por perto. Afinal, que graça tem comemorar aniversário sozinha, né?

Feliz dois meses!
\o/

terça-feira, 13 de março de 2012

Tanta história que nos contam quando somos crianças, né? Adorava todas, até mesmo aquelas que eu achava mais babaquinhas. Um que não me contaram, mas aprendi com o seriado Chaves e Chapolin (amor eterno) é a história de Pedrinho e o Lobo, usada para ilustrar a história de um menino (a Chiquinha, adorooo) deveras mentiroso...



Não sou o Pedrinho. Não sou o Lobo (também não sou a Chiquinha). Mas senti na pele a desconfiança que todos passaram a ter de Pedrinho.

Tenho tentando ser uma ex-fumante do bem. Tou convivendo na boa com quem fuma, numa boa mesmo. Consigo sentar na mesma mesa de bar, colega que fuma do meu lado indo almoçar, encaro tudo numa boa mesmo. Eu sinto o cheiro do cigarro, claro. Mas tenho a impressão de que é algo que já não me pertence, não faz parte mais de mim. Viajo muito quando o povo tá fumando do meu lado. Penso em como era, o que eu faria, mas, ao mesmo tempo, parece que era com outra pessoa, outra Paula. Lembranças de um passado distante.

Enfim, tudo isso para dizer que convivo com fumantes. Se eu fosse não fumante diriam "ih, andou com aquela tua amiga que fuma de novo?". Como sou ex-fumante dizem "tu andou fumando? teve recaída? tem certeza? pode falar".

Nessa hora sou Pedrinho. E não gosto nem um pouco disso.


terça-feira, 6 de março de 2012

1 mês e 13 dias sem fumar e tá tudo sob controle. Mesmo. Não tou nem perto de ser uma ex-fumante: tenho muito caminho a trilhar como fumante em recuperação. O melhor de tudo é que não estou sofrendo. E é sobre isso que queria falar hoje.



Minha mãe, que também parou de fumar, comentou com a pneumologista dela que eu parei de fumar sem tomar absolutamente nada e o quanto ela me admirava por isso. Em vez de um elogio pela coragem, veio uma enxurrada de críticas, de que as pessoas não devem tomar este tipo de atitude sem acompanhamento médico e sem medicamentos. Confesso: fiquei indignada. Dois motivos.

O primeiro é que eu tenho a impressão de que os médicos se preocupam cada vez menos com a saúde da gente e mais em paliativos imediatos. Mesmo com toda essa onda "viva bem, seja saudável", eles insistem em tratar os sintomas do momento, não em uma reeducação que terá reflexo em toda a sua saúde. Não falo isso só por causa da pneumo: o cardiologista do meu namorado aparece com um remédio diferente por mês pra ele tomar, mas não encaminhou para um tratamento, não mandou fazer exercícios, diminuir a cerveja, modificar alimentação. O cara apenas recomenda um remédio diferente por mês para pressão e colesterol (isso que com o índice dele, maneirando um mês já volta ao normal). Sei que os remédios são invenções maravilhosas. Papai do céu sabe o quando eu já defendi o uso de alopatia, uma das maiores evolução nessa vidinha, principalmente quando médico me mandava tomar água quente pra curar uma puta amigdalite. Acho tri mesmo. Mas isso não justifica tomar tanto remédio sem necessidade. E aí entro no segundo ponto.

A médica não acredita que eu não esteja sofrendo. Gente, claro que sofro, cigarro faz falta. Mas não sofro mais do que sofria por não comer lasanha e maionese batida a mão todos os dias (ai que fome!). Tem gente que confunde tristeza e depressão. Bom, do mesmo jeito existem sofrimentos e sofrimentos. A gente não precisa de anti-depressivo para qualquer tranco que a vida dá. Não dá pra querer ser mais feliz o tempo inteiro à custa de comprimido. Tá doente? Toma. Precisa de um impulso porque senão não vai rolar parar de fumar? Toma. Acho justo, muito justo, justíssimo. Tem gente que tá tomando remédio + anti-depressivo + adesivo e sofre muitíssimo mais que eu. Da mesma forma que nenhum remédio garante a ausência de recaídas, outro dos argumentos dela para a necessidade de medicamentos.

Eu tou bem. Eu tou tranquila. Eu parei em um momento que tava autoconfiante. Eu acreditei que conseguiria. Conheço várias pessoas que querem parar e acham que não conseguem, mas são pessoas tão fortes, tão guerreiras, que eu tenho certeza que também conseguiriam, mas que não tão no mesmo momento de autoconfiança. Eu também não estava. Não tenho como garantir que nunca terei uma recaída. Não tenho mesmo, já que a gente muda o tempo inteiro. Mas garanto que não quero, que cheguei no ponto em que não me imagino mais com um cigarro na mão. Quero continuar com essa imagem na cabeça. Isso tem me feito muito bem.

Não acho, nem defendo, que todo mundo deve parar sem nada. De maneira nenhuma. Eu estou conseguindo. Outras pessoas conseguiram. Muitas outras, não. Nem todos estão no mesmo momento na vida. Mas defendo, sim, que as pessoas precisam, uma hora ou outra, com medicação ao não, tentar. Só tentando a gente consegue ter a chance de vencer.

Um dia de cada vez...

quinta-feira, 1 de março de 2012



Em três minutos dá pra fazer um bolo na caneca no micro-ondas.
Em três minutos leio duas páginas e meia de um livro (de repente até três).
Em três minutos eu consigo ser mais cruel que imagino e dizer coisas horríveis, morrendo de raiva.
Em três minutos essa mesma fúria passa e eu nunca entendo porquê as pessoas tão brabas comigo.
Tem médico que defende que três minutos de exercícios são suficientes.
Três minutos sem ar, morremos (a menos que você seja campeão mundial de apneia).
Em três minutos dá pra fazer um lámen.
Encarar um belo sorriso por três minutos, pode mudar seu dia.
Dá pra se apaixonar em três minutos.
Dá pra se desiludir em três minutos.
Dá pra mudar a vida em três minutos.
Três minutos.
O tempo não passa.
Três minutos. 180 segundos.
Esse é o tempo exato das crises de abstinência, que, pelo que li por ali, ainda acontecem esporadicamente por um ano.
Três minutos pra resistir.
Só três minutos.
Mas pela quantidade de coisas que se é capaz de fazer em três minutos, três minutos podem durar uma eternidade.