terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Esse blog, no fim das contas, é minha terapia nessa nova fase. É a certeza do desabafo sem olhares mais críticos (a dinâmica é ótima: eu escrevo, vocês leem, eu não vejo vocês lendo). Porque eu sei que existe muita crítica. Sei que tem gente que fala: "ah, mas ela tá exagerando!", "pobrezinha, será que precisamos internar?", "dramaqueen". Não adianta, o julgamento é inerente ao ser humano. Juro que entendo.

Noto isso tudo quando converso pessoalmente sobre o assunto. Todo mundo tem um pitaco. Todo mundo (especialmente quem nunca fumou na vida) tem a melhor fórmula, entende todas as reações... Impressionante a quantidade de especialistas sobre o assunto que temos aí fora. Sei que no fundo todo mundo só quer ajudar, mas gente, sério, vocês não precisam ter opinião e fórmula pra tudo nessa vida.

Gosto da Sol, queridíssima ascensorista ali do meu trabalho, com quem sempre bato altos papos do térreo ao 10º andar. Ela também era fumante, faz 12 anos que parou. Ela me olha e pergunta: "Firme?". "Firme". Pronto, podemos conversar sobre qualquer outra coisa. Ninguém precisa me passar fórmula secreta, dizer quando a vontade de fumar passa de vez, o que fazer com a minha irritação, ou que o Dr. Chato Varella falou quando passou aquela série. Basta um "Firme?", que me passa o quanto se importam, o quanto me apoiam e o quanto tão comigo nessa. Muito melhor que qualquer fórmula secreta.

Juro.

E aí? Firmes?

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Ando meio sem criatividade para títulos, por isto estou usando o "método Friends de produção de títulos". Explicado isto, vamos à história.


Como todo mundo, costumo sonhar regularmente. Agora, não-como-todo-mundo, costumo lembrar dos meus sonhos. Alguns são tão reais que machucam (mesmo). Esses dias meu namorado me acordou pedindo que eu parasse de chutá-lo. É que eu estava sonhando que estava sendo assaltada e estava reagindo ao assalto (nunca façam isso acordados, por favor). Outra vez foi com a minha mãe. Estava dormindo com ela e acordei dando vários socos. Tudo culpa de uma briga de rua em que eu tinha me metido no sonho. 

Alguns sonhos são tão reais que quando acordo tenho uma certa dificuldade em me situar, saber onde estou. Algumas vezes, por serem muito bons, dá uma tristeza profunda por ter acordado. Outros, naqueles sonhos ao melhor estilo "A Hora do Pesadelo", um grande alívio. Eu já esperava que isso fosse acontecer. Uma hora eu ia sonhar com cigarro, não ia ter jeito. Até achei que demorou.

Estava andando na rua, num lugar que parecia perto da casa da minha mãe, mas por algum motivo que desconheço, todo mundo que trabalha comigo também andava por lá. Do nada me perguntaram: "Voltou a fumar?" Lembro que fiquei muito perturbada com a pergunta, quando apontaram para a minha mão. Eu tinha uma carteira de cigarro aberta. E essa sensação de perturbação aumentou, pois eu não fazia ideia de como aquele maço de cigarros tinha ido parar na minha mão e, muito menos, porque faltavam alguns cigarros. 

Me lembro de negar que eu havia fumado e tentei explicar que eu não fazia ideia de como aquilo tinha acontecido. Nisso, meus colegas de trabalho começaram a bater nas minhas costas e a dizer que não tinha problema, todo mundo entendia porque eu tinha voltado a fumar. Eu lembro de ter ficado ainda mais confusa, pois tinha certeza que não tinha fumado. Quando comecei a gritar com todo mundo que eu não havia fumado e que eles estavam loucos, acordei. De novo aquela sensação de "onde estou" me rondou até que veio o alívio por saber que nada daquilo foi verdade. Ufa!



domingo, 29 de janeiro de 2012

Existem certas situações que foram feitas para o cigarro. Uma situação de estresse extremo por exemplo: nela o cigarro cai como uma luva, te acalmando de algo que pareceu bem grave. Outra combinação perfeita com o cigarro é a cervejinha gelada. Vai dizer: tem melhor que sentar num boteco com uma gelada na mão e um cigarrinho na outra? Quem já fumou sabe como é bom. E se essas duas situações acontecerem no mesmo dia, com intervalo de poucas horas. É aí que entra a força de vontade de parar de fumar.

Estava indo encontrar uma grande amiga pruma saidinha básica. Eu já tinha em mente que seria difícil, mas como essa amiga é uma fumante eventual (e eu sempre fui uma grande fornecedora), achei que não seria um grande problema. Entrei no táxi e fui encarar esta. Como costumo ir a este lugar, sei quanto dá de táxi. O taxímetro rodava em velocidade de bandeira 2, mas marcava bandeira 1. O trajeto costumava dar entre R$8 e R$9. Ainda faltava um bom pedaço e o troço já tinha passado dos R$ 10. Eu tinha certeza de que estava sendo enganada e que aquele taxímetro estava adulterado. Procurei e não vi aquele selinho do inmetro que muitos trazem. Insinuei isto com o taxista e ele começou a me ofender, dizendo que eu estava insinuando a fraude porque eu não tinha dinheiro para pagar. Fiquei irada e mandei ele parar. Entreguei o dinheiro no valor que a corrida tinha dado até então. Mostrei que eu tinha dinheiro na carteira e que se ele era um ladrão, era problema dele, que eu não ia ficar ali bancando a idiota mais nem um minuto. Saí do carro e ele começou a me xingar. Chamei de ladrão e dobrei a esquina. Quando vi, o homem estava atrás de mim. Disse que tinha me marcado e que ia me pegar. Mandei a putaquepariu, mas nisso eu já tremia da cabeça aos pés. Afinal, taxista quando dá pra ser bandido, sai de perto. Eu só não tremia mais porque faltava corpo. Nunca imaginei passar por uma situação dessas numa quinta à noite. Alguém passou fumando do meu lado. Senti aquele cheiro e pensei que fumaria uns cinco cigarros numa só sentada. Mas passou. Cheguei no lugar onde tinha marcado com a minha amiga. Ela e outra amiga estavam sentadas fumando. Pensei de novo naqueles cinco cigarros do estresse. Respirei fundo. Tomei uma água. Passou.

Segunda tentação da noite: a própria noite. O show que assistimos tava tranquilo, afinal, não se pode mais fumar dentro de lugar nenhum. O problema foi depois do show. Encontramos outra amigona, que fuma mais do que eu fumava, e fomos para o bar de um amigo dela, território livre para o cigarro. É, aqui que a porca torce o rabo. A ceva tava gelada, a gente já tava meio bebum, e o cigarro parecia cada vez mais apetitoso. Aqui não teve jeito, tive que apelar para o chiclete de nicotina. Precisei de dois nessa noite. Mas consegui, resisti às tentações.

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Hoje, domingo, completo minha primeira semana, meu oitavo dia, sem cigarro. Desde sexta-feira que não uso os chicletes e continuo me sentindo bem. Ainda tenho vários impulsos de levantar e pegar um cigarro, mas a frequência tem sido muito menor. Dizem que as duas primeiras semanas são as piores. A primeira já foi. Que venha a próxima. Tou pronta.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Esta patrulha antitabagista é um baita pé no saco, mas confesso que tenho achado conveniente. É mais fácil, de fato, não pirar pensando em cigarro quando se vive num mundo em que não se fuma. Não adianta, quanto mais vejo as pessoas fumando, mais vontade tenho de fumar. É inevitável.

Ontem estava falando com uma amiga que está em Pequim e também está colocando o parar de fumar como meta do ano. De repente lembrei de como são as coisas por lá e agradeci por ter tomado esta decisão aqui. Explico. A China em geral é o paraíso dos fumantes. Se fuma muito e em todos os lugares. Todos mesmo. Eu era recém-chegada à cidade, quando, no elevador do prédio, um vizinho acende um cigarro. Sim, camaradas, dentro do elevador do prédio. E ele nem ficou vermelho, ou fez cara de criança que sabia que tava fazendo coisa errada. Nada disso. Para o vizinho chinesão era normal fumar no elevador.

Da mesma forma, é normal fumar em restaurantes. Não há nem uma divisão no salão para fumantes e não fumantes. As pessoas fumam antes de comer, depois de comer e, alguns, durante a comida. Até pra mim, uma fumante compulsiva, aquilo era too much. Ao mesmo tempo, me sentia confortável. Eu não precisava ir pra rua pitar e voltar pra cervejinha gelada, como aqui, não precisava me esconder em algum canto, ou em semanas como essa em Porto Alegre, fritar no sol pra fumar um cigarro. Eu me sentia, digamos, acolhida. Engraçado foi durante a Olimpíada, em que distribuíram cartazes de proibido fumar em todos os bares e restaurantes de Pequim. Mas bastava chamar o dono e perguntar se podia, ele olhava pros lados pra conferir se não tinha algum estrangeiro que poderia reclamar, e entregava o cinzeiro. Ah, a China...

Claro que a tendência é mudar com o tempo. Mas nem no Japão, que todos acham ultracivilizado, os caras fumam menos. Lá também se fuma dentro das casas, bares e restaurantes na maior naturalidade. Até acho que as coisas vão mudar, mas daquele lado do mundo ainda vai demorar um pouquinho. Por isso digo, mesmo com toda a chatice que virou fumar no ocidente, ainda bem que eu estou deste lado do globo quando tomei a decisão de parar.

E força para começar o 5º dia!

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Uma das coisas mais irritantes do mundo é amigo que para fumar. Não, peraí, deixa eu terminar. A criatura vem, conta o drama, diz que parou de fumar e te fila uns 10 cigarros. Sempre que alguém vem chegando perto de mim no fumódromo com esse papo de parei de fumar... batata: a criatura te pede um cigarro. Quando eu fumava isso era muito irritante. Agora que eu parei de fumar, acho quase ofensivo.

Ok, sei que estou um pouco mais sem paciência que o normal, mas pensa. É difícil parar. Eu tou sentindo na pele. A gente tem que se preparar pra isso, tem que aceitar que acabou, que não dá mais. Criatura que diz que parou, mas fica pedindo, só parou de comprar. Porque me ofendo?? Porque tou sofrendo pra caralho por não fumar, morro de vontade de acender um cigarro que seja, mas resisto. A criatura que continua fumando não tem obrigação nenhuma de sustentar a tua mentira. Porque se parou de fumar, para. Resolveu diminuir em vez de parar de uma vez? Beleza. Mas compra teu cigarro. Fora que esse povo te prejudica por tabela.

No meu trabalho tem uma escadaria com saída pra minha rua, mas pra passar por ela, passo pelo fumódromo. Hoje uma das pessoas que tá sempre por ali fumando (e cujo nome não faço ideia) veio perguntar porque eu não tinha aparecido por ali esta semana ainda. Respondi que tinha parado de fumar. "Ah, tá. Parou de fumar ou de comprar?" Porra!!! Por isso me irrita. Os outros fazem a merda e todo mundo paga. Sei o porquê da pergunta, mas fiquei com vontade de mandar longe.

Então vamos combinar assim: se parou de vez com o cigarro, para de vez de filar. Combinado?

Resisti o que deu ao chicletinho, mas agora só ele tem conseguido me manter sob controle. Confesso que tava meio em cética: será? O Nicorete promete até clarear os dentes (além de te deixar menos desesperada). Achei meio estranho, de início. Coloquei na boca e segui as instruções: primeiro masca, quando larga o gosto deixa entre a língua e a gengiva e vai dando umas mascadinhas. Não tem gosto de cigarro. Nenhum. Mas uns minutinhos depois de começar a mascar dá uma sensação de alívio e parece que a gente não vai mais matar ninguém na rua, nem começar a chorar por estar sem cigarro.

Meu namorado se irrita comigo mascando chiclete. Esqueço que tou com o troço na boca e fico horas, mesmo sem gosto. Well, ando fazendo a mesma coisa: tenho mascado dois por dia, mas cada que vez que coloco na boca fico horas e horas e horas... Tem ajudado muito. Santo chicletinho!!! A quem tá na mesma peleia, recomendo.

Hoje é o meu 4º dia sem cigarro. Só tive gana uma vez hoje (gana mesmo, vontade insuportável). Na média, tou calma. Bem que podia continuar assim...

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Impressionante como Murphy é um desgraçado. Você faz o esforção de parar de fumar e o que acontece?

- todo mundo que te fila cigarro constantemente, resolve te pagar.

- quando fumava, passava desespero pq tinha acabado o cigarro. agora eles simplesmente aparecem nas bolsas e gavetas.

- parece que todos os fumantes do mundo escolhem o seu lado para parar na rua, dando aquelas tragadas longas (e lindas).

- aqueles colegas que sempre diziam "ai, cigarro eu não compro" quando iam no mercadinho, agora se oferecem pra comprar cigarro bem na boa

- quando fumava, precisava estar sempre de olho no isqueiro. agora, magicamente, eles aparecem (e funcionam. inclusive parece que todos os isqueiros estragados que você guardava sabe-se-lá-pq voltaram a funcionar).


E com tudo isso, a gente dá risada e segue resoluto. Ô, mas é difícil essa vidinha de ex-fumante!

Ontem, enquanto eu vinha pra Porto Alegre, lembrei que tinha uma carteira de cigarro aberta dentro do carro. Parada ali naquele para-e-arranca, minha cabeça começou a me sacanear de novo. E eu ali, na abstinência, doida pra ceder. Peguei o cigarro e botei na boca. Acendi o isqueiro. Nada. Falhou. Interpretei como sinal. Não fumei.

Mais tarde, já em casa, continuava com a carteira de cigarro dentro da bolsa. Por mais que inventasse coisas pra fazer e tentar não pensar naquele pacotinho dentro da bolsa, continuei com o pensamento fixo nisso. Peguei um cigarro. Deixei rolando entre os dedos. Cheirei. A tentação ficou quase insuportável. Amassei e joguei no lixo. Peguei meu primeiro chiclete de nicotina.

Fui dormir cedo. Afinal, todos nós precisamos de boas horas de sono. Essa é a oportunidade perfeita pra repor e ter um soninho de beleza. No fim das contas, uma das coisas que mais em empolga em parar de fumar é saber que a minha pele vai ficar muito melhor (pelo menos é que mais me é visível nas pessoas que pararam de fumar). Quem disse que eu dormi? Rolei prum lado, rolei pro outro. Cochilei. Acordei com uma dor no peito. Levantei e fui ver TV. Parecia impossível ficar na cama. Fui de novo na bolsa e peguei outro cigarro. Fiquei avaliando toda a situação. Porque, afinal, eu ainda tinha esta carteira de cigarro? Será que eu vou deixar minha cabeça continuar me sacaneando desse jeito? Cheirei o cigarro de novo. Lembrei de todos os momentos em que eu estava naquela mesma situação: sozinha em casa tendo apenas o cigarro como companhia. Lembrei de como eu gostava disso. Daí lembrei da Dulce Helfer, fotógrafa talentosíssima, que, num dia em que eu estava de plantão no jornal, fumando no corredor, veio conversar comigo sobre uma figura ilustre que também fumava. Falou de todo o sofrimento no fim da vida do Mário Quintana, grande escritor que se tornou amigo de Dulce. Falou da respiração difícil, da solidão que nunca era abrandada num quarto pobre de hotel. "A solidão, no fim, se tornou muito maior com a proximidade da morte. No fim das contas, o cigarro não era companheiro, era a própria morte querendo companhia". Deixei o cigarro na mesa. Fui na bolsa e busquei os outros que restavam. Amassei e rasguei todos.

Depois de conseguir negar essas três vezes e acabar com a tentação da companhia silenciosa, fui dormir. E, desta vez, dormi mesmo.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Já falei que não quero substituir uma compulsão com outra. O ideal é ficar relax e não sentir falta disso. O ideal, claro. Meu maior medo de parar de fumar é o de 90% das mulheres fumantes: engordar. A gente só tem medo de morrer com cigarro quando vem a pena final: câncer. Ninguém pensa que vai morrer quando está bem. E isso não é só com cigarro: é com drogas ilícitas, álcool, e toneladas de gordura trans. Morrer por vício não é privilégio dos fumantes.

Mas voltando, tenho medo de engordar. Passei o ano passado todo de dieta. Fiz grandes progressos, mudei hábitos, mas o cigarro tinha sua contribuição. Na hora das festinhas, eu corria pra fumar em vez me esbaldar no bolo; quando estava em casa solita e ansiosa, fumava em vez de comer. Normal. Mas parando, perdi a muleta. Mas como eu me acho foda pra caralho (sic), acho que vou, inclusive, continuar emagrecendo. Este é o plano.

Já comprei um vidro de pepino em conserva pra comer no trabalho. Tou tomando litros (só no trabalho devo ter tomado mais de 2l pelas minhas contas) de água. Também comprei aqueles flocos de arroz caramelizados (com 34 calorias por barra), e cenoura. Amanhã tem academia.

E me desejem força!

Claro que não tenho outro assunto. Só consigo pensar nisso e converso sobre isso. Todo mundo que falei que parou de fumar disse: é assim nas duas primeiras semanas. Meudeus! Ainda tenho 12 dias pra passar por este martírio?? É, tenho.

Mas tem horas em que a coisa dá uma melhorada. Me senti muito mal pela manhã. Mesmo de óculos, não conseguia nem focar as palavras, muita tonteira e dores nas juntas das mãos. Depois do meio-dia a coisa melhorou. Almocei bem devagar e procurei limpar a cabeça. A gana foi substituída pelo desconforto de caminhar na rua com aquele calor. Pelamordedeus, o que é essa cidade de quente??? Depois fui pra massagem. Saí tão bem que a vontade era ficar lá o resto do dia. Impossível não amar.

Minha cabeça anda negociando com ela mesma apenas um cigarro. Desde ontem. Um lado afirma que um cigarro pra quem fuma 30, 35, tá mais que bom! Diz mais: um cigarro tem um quarto da nicotina que um chiclete de nicotina possui. Essa briga interna é o que mais tem me angustiado. Eu até acho que um pra 30 tá muito bom, mas sei que é o vício falando, que o bom mesmo é não fumar nada. Também sei que não existe um cigarro. O segundo sempre vem! Já penso nele fumando o primeiro.

Eu já pensava em parar de fumar antes. Estava amadurecendo a ideia há um tempo. Na real, me enrolando há um tempo. Ontem, no meio do choro e surto, me peguei a ler o resto da biografia do Eric Clapton. Ele passou por quatro desintoxicações: uma da heroína, duas de álcool e uma do cigarro. Uma das coisas que achei mais interessantes nisto tudo foi a recaída do álcool que ele teve, quando ele realmente acreditou que poderia ser forte o bastante para beber socialmente, como as outras pessoas. Em um determinado ponto ele conclui que passava o dia inteiro esperando pelo momento da dose de whisky. Ele não estava bebendo as quantidades absurdas que bebia antes, mas a vida estava girando em torno do álcool. Tenho certeza que se eu topasse o acordo comigo mesma de fumar um cigarro por dia, meu dia giraria em torno de esperar aquele momento. E me conhecendo do jeito que conheço, em breve seriam dois, três, quatro, cinco cigarros.

Não adianta, não sei fumar socialmente. Nunca vou fumar socialmente. Para mim o jeito é parar. Parar e pronto. Também tenho medo do acompanhamento médico. Tipo: vou lá e o doc recomenda um ansiolítico. Maravilha! Vou ficar calminha, achando tudo lindo... mas morro de medo de nunca mais conseguir ser uma pessoa mais serena sem um comprimido. Não sei se quero me desintoxicar, me intoxicando. Também não sei até que ponto quero me livrar de um comportamento compulsivo adotando outro. Seria tão bom se todos fossemos pessoas equilibradas sem nenhuma química atuando junto. Quero tentar isto. De verdade. Por isso tento.

Claro que posso vir a falhar. Claro que posso comprar o rivotril semana que vem e tudo isso ir descendo pelo ralo. Existe a possibilidade, mas reafirmo: quero tentar, mesmo que isto signifique sofrer mais.

É impressionante como a gente se perde quando para de fumar. Não sei bem o que fazer com os dedos, como conversar, o que fazer com essa dor no peito. Parar de fumar dói. Isso ninguém nos conta. O que mais ouvimos são os discursos inflamados de como o cigarro nos mata e que se não largamos o vício somos sem-vergonhas. E depois do Dr. Chato Varella, a patrulha ficou muito pior. Ninguém nos diz como é parar, para além do é difícil; ninguém fala das crises de abstinência; ninguém diz que a gente fica tonto, que dá vontade de chorar e matar, numa espécie de TPM elevada à milésima potência. Ninguém diz que a gente sente dor nas juntas dos dedos.

Eu parei ontem. Prometi pra mim mesma que pararia este ano e seria logo depois do meu aniversário. Acho que se fizesse de novo, marcaria nova data, só pra poder aproveitar bem cada cigarrinho restante. Mas agora já foi. Adeus. Ontem, um domingo, fiz de tudo para não sair da cama. Deitada dá menos vontade de fumar. Dormindo dá menos vontade. E eu queria evitar a vontade. Mas daí deu fome...

Esse foi um lance estranho. Me deu fome. Só que depois de comer, MORRO de vontade de fumar. E tem que ser dois cigarros, que é pra fazer a digestão mesmo. Morri de vontade. O que conclui: well, quanto mais eu comer, mais vontade vou ter. E agora, José?

Ontem foi o dia de me testar mesmo. Tomei uma cerveja. Fiquei uns 40 minutos chorando sozinha com o copo na mão, enquanto minha cabeça lutava com ela mesma sobre o dilema de acender um cigarro ou não. E continuei nesse conflito quase até a hora de dormir, chorando e me segurando para não acender o cigarro.

Não acendi. Acho que posso dizer que este primeiro dia foi vitorioso.

Hoje, dia 2, dormi mal. Acordei de hora em hora. Ainda bem que eu estava dormindo com o namorado, que me abraçava forte todas as vezes em que eu pensava em levantar e fumar um cigarro. Ele estava lá. Isso fez a diferença. Passei a manhã inteirinha tonta, com dores no peito e até uma certa falta de ar. Paro e respiro fundo pra continuar. Tenho muita, muita vontade de fumar. Quase choro a todo instante. Tento pensar em coisas para fazer o dia inteiro, tentando tapear minha vontade de fumar. Tem momentos em que eu nem penso no cigarro, mas daí vem aquela dor de novo e eu sei que dor essa.

Estou fazendo o máximo para não usar os chicletes de nicotina. Quero colocá-los na boca quando eu tiver certeza que vou enlouquecer se não o fizer. Quero ser forte, mas não é fácil. O cigarro deixa um vazio, que não pode ser ocupado por uma pessoa ou uma nova diversão. O cigarro é a presença silenciosa, a companhia conivente, o momento de respirar. Alguém me ensina um jeito de ter isto sem o cigarro??